quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Projeto de leitura: (10) Ensaio sobre a Dádiva (Marcel Mauss) - Conclusão do Ensaio


A sugestão da "conclusão" do Ensaio é que o trabalho é sempre uma dádiva em qualquer sistema (capitalista: onde ele também é mercadoria; ou em qualquer outro). Tese esta que segue a escola de Durkhein de se opor as análises Marxistas (ou de Marx) da sociedade capitalista, pois, se verdadeira, implicaria no operário ser ele mesmo o agente (simultaneamente voluntário e involuntário) da entrega da parte de si mesmo ao capitalista. (Para Marx a entrega não deixa de ocorrer, mas não se trata de dádiva e sim algum tipo de apropriação, que talvez merecesse ser lida como extorsão).

Há um fomento na questão de haver maiores estudos nesta questão de haver realmente um aspecto de dádiva na lógica da mercadoria, do trabalho e de suas representações nas sociedades capitalistas.

Na concepção socialista de Mauss implicariam:

a) A defesa de mecanismos de legislação social e de redistribuição social estatal da importação e da arrecadação de tributos (o que segundo LANNA (1995) não deixam de ser prestações totais, semelhantes às dádivas)
b)Um pedido (talvez ingênuo) para "os ricos" terem "boa fé", sensibilidade e caridade nos contratos de aluguel, observarem o interesse que existe no "dar" e que "voltem a considerar-se como espécies de tesoureiros de seus concidadãos. Apela-se para que os "ricos" voltem às práticas das "despesas nobres" (MAUSS, 1974, p. 167)
c) Um argumento de que "os grupos devem agir", isto é, de que os sindicatos devem, enquanto associação voluntária, defender "seus interesses" (idem, p. 168), devem participar do congresso, da lógica individualista. Da mesma forma, os artistas devem assumir o direito de posse das suas criações, estas não sendo apenas dádivas, mas algo que pode ser vendido. Há aqui uma defesa da arte: ela não perderia seu valor mágico se se tornasse cada vez mais uma mercadoria!
d) Uma defesa da previdência privada e de que "o custo da segurança trabalhista fizesse parte das despesas gerais de cada indústria em particular" (idem, p. 166). (Este pensamento, com certeza, é mais liberal do que socialista, no entanto, liga a percepção de que os trabalhadores merecem mais do que seus salários)

Para Mauss não devemos associar o econômico à circulação do útil: Há "instituições econômicas" como a "divisão do trabalho", mesmo em "sociedades infinitamente menos evoluídas" ( idem, p. 173). (mesmo assim não devemos supor a inexistência de uma esfera da economia com um desenvolvimento caracteristicamente moderno: o mercado, como nos ensina Dumont (1977).

Mauss relata que a teoria comparada, economica ou não, antes de mais nada deve iniciar-se pela etnografia. Nada seria mais frutífero do que encontrar fatos novos para enriquecer o estudo comparativo. (Este seria o elogio Maussiano ao estudo concreto)

O autor relata que a dádiva implicaria mais felicidade e menos seriedade (idem, p. 182). Neste sentido o parelelo entre Mauss e Marx fica evidente: para este o capitalismo se autodestruiria e seria sucedido por uma sociedade mais igualitária. Para Mauss, trata-se menos de substituir as formas capitalistas de produção e muito mais de estimular a produção de desigualdades de tal forma que estas se sobrepusessem gradualmente àquelas. (Se Mauss é mais pessimista que Marx,  Lévi-Strauss é mais que ambos: para o último, quanto mais troca, seja ela de qual tipo for, mais exploração)

Para finalizar, LANNA (2000) relata: "[...] o tom otimista da "Conclusão" parece se justificar minimamente pelo fato de Mauss nos ensinar algo, ao meu ver, absolutamente funda-mental: a felicidade humana não está em outra parte que não no dar e receber, no respeito mútuo e na generosidade recíproca."


Leandro Moreira da Luz é economista e aluno do Curso de Direito da Faculdade Integrado de Campo Mourão, período 2015.2

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