barros de castro, Antônio (2001) “A Reestruturação Industrial Brasileira nos anos 90. Uma Interpretação”, Revista de Economia Política, vol. 05, n. 02, pp. 03-26
O Objetivo do presente artigo é interpretar a reestruturação industrial por qual a economia brasileira passa nos anos 1990. Analisando a excepcionalidade do contexto econômico dos anos 1980-94; refletindo sobre a fase “cirurgia e reorganização” das empresas no Brasil, sobre a “festa da estabilização”, observando a estrutura e produtividade de alguns setores e sinalizando os riscos e seqüelas inerentes à conjuntura econômica.
No início dos anos 1980 a elevação dos preços e os brutais solavancos da política econômica impunham às indústrias sediadas no país políticas agressivas de preços e uma gestão flexível e super-atuante. Neste contexto, as atenções voltaram-se para a produção e a eficiência operacional, sendo que as empresas estrangeiras “hibernaram”, imobilizadas diante de um contexto a tal ponto idiossincrático. A adaptação a tal ambiente implicava ineficiências, associadas, por exemplo, ao aumento dos custos requeridos para a preparação de linhas e máquinas, ineficiências relacionadas com a precificação em condições de alta inflação, etc. Tudo indica que neste contexto a ampliação do leque de negócios e a necessidade de antecipar-se à próxima rodada de alta de preços (para evitar a descapitalização) levavam às folgas (slack) intimamente associadas à característica do contexto. Visto neste prisma, a proteção concedida à produção doméstica, apenas compensava ou viabilizava a manutenção do peculiar arranjo de instituições e práticas imperantes no Brasil.
Enquanto no mundo desenvolvido a renovação dos métodos de organização e gerenciamento ganhava rigor, aqui virtualmente cessavam as mudanças do lado real da economia. A economia brasileira perdia market share nos mercados mundiais, enquanto suas empresas industriais, em regra, apenas sobreviviam, permanecendo à margem da renovação e mudança que varria as regiões industrializadas.
A abertura enunciada em 1990 apanharia a indústria numa situação bastante difícil: por um lado as barreiras protecionistas permitiam preços bastante superiores aos vigentes no mercado internacional, por outro havia as ineficiências engendradas pela evolução recente na economia. Isso denotava a metabolização de um contexto altamente adverso.
Neste contexto o processo de reestruturação das empresas brasileiras entre 1989-94 incluíram não apenas o redimensionamento dos quadros, o enxugamento do catálogo de vendas e o fechamento de instalações, com também a adoção de novas práticas gerenciais tipicamente associadas à Gerência da Qualidade Total (TQM) e ao Just in Time (JIT). Multiplicaram-se, em suma, as experiências com mini-fábricas e “células de produção”, como soluções do tipo kan ban, visando puxar a produção de acordo com a demanda (todas associadas ao sistema JIT). Há, também, a busca de certificação nas normas ISO, e consideráveis esforços visando o treinamento de pessoal. Cabe observar a alta incidência do objetivo de redução dos custos e, por último, o fato de que, em 94% dos casos, a escolha da trajetória de modernização se deu primordialmente através de procedimentos gerenciais e não sob a forma de aquisição de máquinas e equipamentos. Sumariando, as diversas cirurgias atingiram não só o “lastro” de produtos, pessoal, máquinas e espaço, como também um conjunto de práticas de gestão tornadas pouco competitivas.
A economia brasileira viveu, neste primeiro período, o equivalente de uma “abertura travada”: enquanto perdurassem os distúrbios maiores, era inclusive difícil financiar importações: todos, inclusive potenciais financiadores de importações, mantinham o pé pousado sobre o freio. Outra característica estrutura da economia era o alto grau de encadeamento vertical observado em diversos setores da indústria (uma herança do intenso e duradouro processo de substituição de importações), acrescenta-se ainda que as demandas intermediárias apresentam relações de maior inércia do que as do consumidor final e do varejo. Algo mais sério e profundo nestas dolorosas cirurgias é que o que está sendo muitas vezes eliminado são possíveis trajetórias futuras, que passaram a ser percebidas como, digamos, não férteis. Por isso, não se trata apenas de aproveitar os melhores recursos, mas de um reposicionamento que define as trajetórias de possível interesse daí por diante. E isto mexe com a própria identidade das empresas.
No caso das multinacionais chegara o momento de redefinição do status das filiais aqui sediadas. Não se tratava apenas de deixar seu imobilismo. Neste caso o repertório de modernização (aí incluído novos produtos) e racionalização a ser por elas eventualmente adotados era enorme e podia ser facilmente visualizado, restava saber como ficaria a relativa autonomia decisória ensaiada durante a fase da substituição de importações.
É válido lembrar que a transição para a estabilidade tende a trazer consigo uma situação de relativa euforia, especialmente se esta não for acompanhada de políticas de contenção da expansão creditícia (ainda mais, numa situação de super-abundância de liquidez internacional). No entanto, já em 1995, se verificou uma grande frustração de expectativas, trazendo consigo severas dificuldades para muitas empresas. Em meados de 1996, contudo, a economia estava de volta ao crescimento. A rigor, nos 12 meses findos em junho de 1997, a indústria cresceu 7,5%. Lamentavelmente, entretanto, logo a seguir teria início a crise asiática e a economia brasileira voltava a ser longamente travada por políticas monetárias brutalmente severas. Cabe realçar o fato de que o crescimento das vendas parcialmente se explicava pelo rebaixamento dos preços relativos dos tradables vis a vis salários. Evidentemente, aqui, a sobrevalorização do câmbio teve, direta ou indiretamente, uma decisiva influência.
Lembremos que, no que toca às oportunidades e desafios devem ser destacados, por um lado, a brutal expansão dos mercados e, por outro, a abertura e a valorização do câmbio, com seu duplo e contraditório papel: barateamento tanto das importações de produtos concorrentes, quanto de insumos e bens de capital capazes de propiciar a modernização produtiva e a diversificação da linha de produtos. A estabilização acarreta o surgimento de um quadro muito mais transparente, onde se torna mais fácil responsabilizar divisões, produtos, etc. pelos êxitos e fracassos das empresas; isso corre em paralelo com o maior poder conferido ao consumidor. Por outro lado, essa revelação da ampla distancia dos padrões e práticas internacionais, a situação pode ser interpretada como dificilmente remediável, predispondo à busca de sócios, ou mesmo à venda do patrimônio.
No que tange a produtos e processos, enquanto na fase denominada “cirurgia e reorganização” o eixo de mudanças residia no corte e na reorganização, nesta segunda etapa o uso de novos insumos e a aquisição de equipamentos de última geração assumem importância decisiva. Quanto à terceira reação típica, em determinados casos o deslocamento de fábricas reflete a busca de fatores produtivos mais baratos, em resposta à maior pressão competitiva trazida pela abertura, o que freqüentemente parece ocorrer é que a migração é pensada e levada a efeito como parte integrante do esforço de convergência (catch up) _ incluídas mudanças de processos, linhas de produto, etc. Em resumo, não se tratava, para as indústrias, meramente de preços para fazer frente ao novo ambiente competitivo. O problema era estar fora da (nova) fronteira de produção. Estamos, portanto, falando, não de distorções provocadas por “preços fora do lugar”, e sim da adoção de formas de reorganização, técnicos e produtos “superiores” (capazes de poupar, simultaneamente, trabalho e capital). Nesse comenos, o autor coloca que apenas sinaliza que o mapa regional da indústria está efetivamente mudando.
Indústrias tradicionais do tipo têxtil, confecções e calçados, custaram a reagir do desafio com que se deparavam. Já algumas indústrias de maior conteúdo tecnológico, em muitos casos, não conseguiram jamais se reposicionar. Mais adiante, em 1999, com a forte depreciação do câmbio, as indústrias tradicionais entraram em franca reafirmação. Já no caso das empresas de maior conteúdo tecnológico, o escasso domínio das técnicas, dificuldades de natureza financeira, e em diversos casos, insuficiências de escala, levaram ao desaparecimento de muitas firmas. No pólo oposto, ou mais precisamente no campo da mecânica de baixa sofisticação tecnológica, por sua vez, as fortes relações com os clientes garantiam certa “imunidade à abertura”. Quanto às indústrias mecânicas de nível tecnológico médio (como, notoriamente, a automobilística), o caso brasileiro se destaca pela vigorosa reafirmação em termos de capacidade, modernização produtiva e densidade das cadeias. Encerrando estas sumárias e assistemáticas observações sobre setores, acrescenta-se a subida exuberância exibida no mercado doméstico, aliada à facilidade de importar, à multiplicação de negócios em maior ou menor medida informais, mas capazes de disputar a franja interior de certos mercados.
É a proliferação dos “nanicos”, das “tubaínas” e do “mercado cinza”, que entre outros fatos dão testemunho de vigorosa luta por espaços, especialmente nos mercados correspondentes à base da pirâmide social.
É a proliferação dos “nanicos”, das “tubaínas” e do “mercado cinza”, que entre outros fatos dão testemunho de vigorosa luta por espaços, especialmente nos mercados correspondentes à base da pirâmide social.
No tocante à produtividade, os avanços que vinham sendo alcançados desde os primeiros anos de 1990, prosseguiram ao longo da década, não se esquecendo que, no caso do Brasil, a produtividade média é fortemente puxada para baixo por amplos setores de escassa formalidade (construção civil, pequeno comércio). Noutros casos, é interessante registrar que recentemente têm surgido relatos sobre casos excepcionais, em que o desempenho (produtividade incluída) alcançado no Brasil por certas filiais excede o alcançado nas matrizes. (O caso da GM do Brasil tornou-se modelo para toda a corporação por ser uma empresa “eficiente, ágil e lucrativa”, nas palavras do executivo Jack Smith[1]).
As diferenças entre a fase denominada catch up produtivo e o período anterior de cirurgia e reorganização, pode ser apreendida a partir do duplo papel exercido pelo barateamento, renovação e intensificação das importações: colocar em cheque as opções das empresas (no que concerne à disjuntiva fazer x comprar, e ao relacionamento com os fornecedores locais) e, simultaneamente, facilitar a rápida incorporação de avanços. Nesta segunda fase, o mercado puxa na direção da renovação, e as facilidades de financiamento/compra de produtos importados “empurram”: seja na mesma direção (atualização/reafirmação), seja rumo ao esvaziamento (das empresas e das cadeias).
Há de assinalar, entre as características adicionais da postura no catch up produtivo, a recusa implícita ao esforço próprio de inovação. A tendência era de: buscar, tão rápido quanto possível, a renovação e a eficiência, com a percepção de que não se deveria mais contar com o apoio de instituições públicas, o que tendia a minimizar os espaços reservados a iniciativas inovadoras (inclusive programas de P&D).
No que tange à exportação, os pífios resultados obtidos pelas exportações no período sugere que a ninguém ocorre de buscar novos mercados no exterior (salvo casos de vantagem comparativa consagrada), pois estes estão saturados, cuja saturação só se escapa com criatividade, inovação (própria), investimentos em marketing e em marcas (esforço que o mercado doméstico, por hora, tem boa dispensa). Paradoxalmente, as mudanças em curso estavam forçando a posição do mercado doméstico como centro da gravidade da economia. Desse modo o movimento de catch up avançou intensamente antes da desvalorização de janeiro de 1999.
Analisando o significado desse catch up produtivo de uma maneira “gráfica”, no eixo horizontal estariam as referidas funções, começando pela esquerda, pelo conjunto upstream (planejamento estratégico, P&D, design, engenharia de produtos e processos); a parte mais baixa da curva corresponde às tarefas levadas a feito pelas próprias plantas industriais: fabricação e montagem (inclusive acabamento). À direita, encontram-se atividades downstream (distribuição, marketing, gerência de marcas, etc.).
Com o eixo vertical tendo o “valor agregado”, notamos que fabricação e montagem geram menor valor agregado, por funcionário empregado. A idéia de que o Brasil optou por privilegiar as atividades de fabricação e adjacências significam, a luz dessa idéia, que a escolha incidiu sobre funções freqüentemente tidas, na atualidade, como, digamos, menos nobres. Cabe lembrar que as multinacionais escolhem países em desenvolvimento com esse perfil de “hipertrofia seletiva das funções manufatureiras”. É plausível lembrar que a atrofia relativa das funções não manufatureiras seja, especialmente no caso do Brasil, uma herança da fase de substituição de importações.
Com o eixo vertical tendo o “valor agregado”, notamos que fabricação e montagem geram menor valor agregado, por funcionário empregado. A idéia de que o Brasil optou por privilegiar as atividades de fabricação e adjacências significam, a luz dessa idéia, que a escolha incidiu sobre funções freqüentemente tidas, na atualidade, como, digamos, menos nobres. Cabe lembrar que as multinacionais escolhem países em desenvolvimento com esse perfil de “hipertrofia seletiva das funções manufatureiras”. É plausível lembrar que a atrofia relativa das funções não manufatureiras seja, especialmente no caso do Brasil, uma herança da fase de substituição de importações.
Sumariamente, vemos que a opção pela priorização das funções operacionais é uma senda na qual se podem divisar diversos obstáculos: i) sua contribuição para o medíocre desempenho das exportações já foi realçada (além de multiplicar as importações e tragar enormes quantidades de capitais), na questão do balanço de pagamentos; ii) há uma maior vulnerabilidade no modelo (footloose) das novas fábricas, visto por esse ângulo, as vitórias no campo industrial são mais perecíveis; iii) amplia-se e radicaliza-se a experiência dos “fabricantes por contrato” (empresas sem rosto, capazes de rodar durante o dia a produção de uma empresa e à noite a de seu concorrente), estas empresas podem trazer sérias pressões competitivas para empresas que escolheram enfatizar operações como saída frente a uma conjuntura crítica. (pois estas apresentam sérias vantagens no que toca à escala, simplificação de atividades burocrático-administrativas, utilização de capacidade e poder de barganha frente à fornecedores); iv) há, mundialmente, uma aceleração da produção de inovações, e tem se tornado mais rápido e barato imitar, isto implica, por uma lado a redução da capacidade de reter vantagens (baixa apropriabilidade), por outro a necessidade da compra recorrente de soluções tecnológicas e licenças para uso de produtos. Mesmo que ainda, em certos casos, isso possa não constituir problemas, há um fator o qual não há controle: a qualquer instante as fontes provedoras de novas soluções podem rever seu posicionamento, com graves repercussões para o destino das empresas locais.
Concluindo, o autor adverte para o fato de que o catch up, como imitação que é, pode ser facilmente imitado. Se se pretente alcançar uma economia capaz de gerar bons lucros e pagar altos salários, o posicionamento típico atual das empresas industriais tem que ser seriamente revisto.
Leandro Moreira da Luz é aluno da disciplina Economia Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas da Universidade Estadual de Maringá – período 2/2011.
[1] Exame, 09/09/1998.

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